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História

Vasco Pulido Valente e a derrota de Israel

Vasco Polido Valente, ensaísta, escritor e comentador político português, faleceu na tarde desta sexta-feira, 21, em Lisboa. Tinha 78 anos e desde 2017 havia reduzido sua participação nos meios de comunicação portugueses justamente por questões de saúde.

VASCO PULIDO VALENTE E A DERROTA DE ISRAEL

Por ROBERTO KEDOSHIM

Pulido Valente nasceu no seio de uma família comunista e no auge do salazarismo. Não teve uma vida fácil. Findo o período ditatorial, Polido Valente tornou-se uma referência em alguns dos principais órgãos de comunicação portugueses e sempre foi afagado por setores da esquerda lusitana até que… Até que em agosto de 2006 escreveu um curto artigo no jornal Público, um artigo onde ousou tocar em duas vacas sagradas adoradas pela esquerda mundial: Os muçulmanos e os adversários de Israel. E Pulido caiu em desgraça.

Memorial marca local onde soldados IDF foram atacados em 2006

A SEGUNDA GUERRA DO LÍBANO

Uma das últimas grandes guerras travadas pelo Estado de Israel em defesa do seu território começou com um ataque realizado por terroristas do grupo Hezbollah na noite do dia 12 de julho de 2006. Naquela oportunidade, um grupo de terroristas cruzou a fronteira norte de Israel com o Líbano armando uma emboscada contra soldados israelenses que patrulhavam a região. A patrulha seguia em dois Humvees, jipes especiais para policiamento de zonas de guerra, onde se encontravam 7 militares das Forças de Defesa de Israel (FDI). No primeiro veículo estavam o comandante Ehud Goldwasser, o motorista Razak Muadi e os soldados Eldad Regev e Tomer Weinberg. No segundo, três soldado, Shani Turgeman, Wassim Nazal e Eyal Benin.

Os Humvees foram atacados com mísseis antitanques e pesados ​​tiros de metralhadoras. Nazal foi morto dentro do Humvee que conduzia e Turgeman e Benin foram emboscados e executados no momento em que tentavam escapar do veículo em chamas. Razak Muadi conseguiu escapar e, mesmo ferido, arrastou Tomer Weinberg para um arbusto. Gravemente feridos, Ehud Goldwasser e Eldad Regev foram sequestrados pelos terroristas, que os levaram para o Líbano. A ação não demorou mais que 10 minutos.

Pelo lado israelense, o ataque terrorista, e posterior sequestro, acabou por despoletar uma guerra que deixou 121 soldados e 44 civis mortos. No lado libanês, morreram 1.922 pessoas, entre terroristas e civis.

No momento em que Israel dominava completamente o conflito, a ONU interferiu sugerindo o estabelecimento da presença da Força Interina das Nações Unidas (UNIFIL) em toda a região sul do Líbano.

Para evitar que Israel tomasse a região, tendo em vista as leis do Direito Internacional que regem os desdobramentos pós-guerra, Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah, declarou que aceitava o envio da UNIFIL. Num pronunciamento, considerado “sem precedentes” pela MSNBC, Nasrallah “lamentou o sequestro dos dois militares israelenses, afirmando que se soubesse que isto levaria a uma ‘guerra de tal amplitude’, não teria capturado os militares”. Consciente da tremenda derrota que lhes foi imposta, Nasrallah concluiu: “Se soubéssemos que o sequestro dos soldados nos levaria a isto, definitivamente não o teríamos feito.”

Nos dois anos que se seguiram, as famílias dos soldados sequestrados não tiveram qualquer notícia. Não sabiam sequer se estavam vivos ou mortos. No dia 16 de julho de 2008, depois de um longo processo de chantagem, o Hezbollah informou que os dois soldados haviam morrido. E entregaram os seus corpos. Nas negociações, Israel libertou 5 terroristas que cumpriam penas de prisão perpétua por crimes cometidos contra cidadãos judeus. Um dos libertados, Samir Kantar, estava preso por diversos assassinatos, entre eles o de uma menina judia de 4 anos.

As negociações para o resgate dos corpos dos soldados se deram na cidade costeira de Naqoura, no sul do Líbano. Na hora de fechar o acordo, os terroristas, de forma desrespeitosa, lançaram ao chão dois caixões pretos que foram prontamente examinados por peritos israelenses que confirmaram a identidade dos mortos através do estudo das arcadas dentárias.

O Hezbollah preparou um longo tapete vermelho por onde Samir Kantar desfilou sob o aplauso de centenas de pessoas. Uma banda tocou músicas marciais enquanto uma fila de terroristas uniformizados saudava o ex-prisioneiro.

“Sabíamos que você estava à espera da resistência e ela chegou. Você voltou livre e herói”, disse Ibrahim Amin al-Sayed, chefe do braço político do Hezbollah. Samir Kantar enxugou uma lágrima.

Em Israel, Zvi Regev, pai de Eldad, se desfez em lágrimas no momento em que viu, pela televisão, o Hezbollah retirar os caixões de uma van e colocá-los no chão. “Foi horrível vê-lo. Eu não queria, pedi que desligassem a TV”, concluiu o pai.

Nos dois anos que duraram as negociações, o Hezbollah nunca chegou a dizer que os soldados haviam morrido. Isto, de forma perversa, alimentou uma esperança vã entre os familiares. “Sempre esperamos que eles estivessem vivos, que voltassem para casa e que nós pudéssemos abraçá-los”, afirmou um familiar de Ehud Goldwasser. “Tínhamos essa esperança o tempo todo”.

O DESPERTAR DE VASCO PULIDO VALENTE

A guerra, que havia começado no dia 12 de julho de 2006, terminaria pouco mais de um mês depois, em 14 de agosto. Na oportunidade, Vasco Pulido Valente esqueceu suas raízes esquerdistas, esqueceu que o próprio Partido Comunista Libanês era um dos derrotados, e escreveu no jornal Público um texto onde lamentava a forma como a ONU havia forçado o encerramento do conflito. O texto, intitulado “A derrota de Israel”, dizia o seguinte:

“Em Israel, a maioria da população não tem a menor dúvida: 70 por cento acham que o Hezbollah ganhou. O Exército libanês não vale nada e o primeiro-ministro do Líbano, Fouad Siniora, já declarou anteontem que não tenciona desarmar ninguém. De resto, quem pode seriamente confiar a vida a soldados da França (5000), da Itália (2000), da Turquia (1200), da Malásia (1000), da Indonésia (850), da Espanha (700), da Finlândia (200) e do Brunei (200)? É desta força heterogênea, estrangeira, incomandável e simbólica que se espera a neutralização do Hezbollah? Uma força que, de resto, não estará no terreno em menos de um ano? E de que vale uma ‘zona-tampão’ porosa como um passador? No fundo, a ingerência internacional e a UNIFIL só servem para enfraquecer Israel, que a opinião do Ocidente abandonou. Como a Intifada e a anterior ocupação do Líbano, a ofensiva contra o Hezbollah não foi ‘limpa’. Por outras palavras, não foi uma guerra de um exército regular contra outro exército regular. Morreram civis. A artilharia e a aviação arrasaram aldeias, cidades, pontes, portos. De longe, de muito longe, o público iletrado e sentimental da Europa e da América via as vítimas, mas não via os rockets que o Hezbollah escondera nas ruínas. A ‘barbaridade’ de Israel pareceu incontroversa e os ‘peritos’ resolveram invocar o aberrante argumento da ‘resposta desproporcional’. ‘Desproporcional’ a quê? À instalação na fronteira de meios suficientes para paralisar e destruir uma boa parte de Israel? À própria sobrevivência de Israel? Nunca houve resposta. O espetáculo do sofrimento chegava para convencer a boa alma do Ocidente. [George] Bush e [Tony] Blair, sem apoio doméstico e em plena derrota no Afeganistão e no Iraque, recuaram; e da sombra saiu o sinistro [Jacques] Chirac. A Europa e a América decidiram de repente que a pequena querela entre Israel e o Hezbollah (um assunto local) não interessava particularmente ao futuro do mundo. Apesar do 11 de Setembro e de tudo o que a seguir aconteceu, o Ocidente não consegue levar a sério a ameaça do islamismo, como levou a sério a do comunismo. No fundo, o homem comum não acredita que uma civilização fracassada, miserável e medieval possa prevalecer contra a majestade da Europa e da América. Talvez sim. Mas pode, entretanto, empurrar a Europa e a América para um desastre difícil de imaginar e de reparar. Com a derrota de Israel, esse desastre ficou mais próximo.”

Nesta sexta-feira, véspera de um sábado de protestos em Israel, como, aliás, tem sido todos os sábados nos últimos anos, Vasco Pulido Valente morreu. Morreu sabendo que aquilo que ele vaticinou no célebre artigo de 14 anos atrás continua a acontecer. O Ocidente não tem levado a sério a ameaça do islamismo e os europeus, ingenuamente, não acreditam que uma civilização obscura e medieval possa vencer a sua iluminada Europa.

Vasco Pulido Valente morreu consciente de que as derrotas de Israel são, no fundo, derrotas de todo um mundo civilizado. E neste dia 21 de fevereiro de 2020, fica aqui nossa homenagem a um homem que soube abrir mão do seu passado após perceber a cegueira que cerca os amantes e defensores dos inimigos de Israel.

ANDS | PÚBLICO | MSNBC

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