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Arqueologia

Repensar a Arqueologia para entender a História de Israel

Na imagem acima, alunos participam de aula de Geografia e História Bíblicas numa réplica do Tabernáculo localizado no sítio arqueológico de Timna, no sul de Israel, a sudoeste de Aravah.

A Arqueologia está se aproximando de um ponto de onde a Bíblia nunca se afastou.

Ao longo da história, a arqueologia foi uma ciência que basicamente vasculhou entulhos em busca de evidências. E estas evidências só eram provadas quando os escavadores encontravam alicerces e paredes. Via de regra, para a arqueologia, povos que não deixaram estes registros são considerados nômades.

Mas, aí a história de Israel se depara com um dilema: É possível encontrar provas arqueológicas sem encontrar alicerces e paredes?

Este tem sido o desafio dos últimos anos do arqueólogo israelense Erez Ben-Yosef, professor da TAU, a Universidade de Tel Aviv

“A história bíblica é uma história de nômades”, afirmou o professor segundo o jornal Jerusalem Post. “Quase todo mundo concorda que o antigo Israel emergiu de uma sociedade nômade, e o mesmo é verdade para os reinos vizinhos – os moabitas, os edomitas, os amonitas – que foram estabelecidos por coalizões de tribos nômades.”

Nm artigo publicado no Jerusalem Journal of Archaeology, Ben-Yosef atenta para o fato de que até agora, o consenso entre os estudiosos era que antes de uma sociedade se tornar sedentária, ela não poderia ser considerada complexa ou evoluída. Por esse motivo, muitos rejeitaram a noção de que o antigo Israel poderia ser tão poderoso quanto descrito na Bíblia. No entanto, para entender a nação de Israel dos tempos bíblicos, mais precisamente dos tempos do Rei Davi e do Rei Salomão, é necessária uma nova abordagem, que deixe para trás a necessidade de encontrar restos de edifícios magníficos, mas que seja capaz de fazer as perguntas certas e colocar os registros arqueológicos e históricos na perspectiva certa .

“O problema é que quando pensamos em nômades, imediatamente pensamos nos modernos beduínos e acabamos presos em uma certa caixa mental”, acrescentou Ben-Yosef. “Já é hora de pensar fora da caixa”, concluiu o professor.

“Normalmente, a arqueologia não nos oferece a possibilidade de estudar as sociedades nômades e sua cultura material, por isso baseamos as nossas conclusões em suposições”, disse ele.

As tendas, de fato, não deixaram rastos, por isso os arqueólogos acabaram por desenvolver suas próprias teorias. Da mesma forma que a falta de provas concretas de como era a vida dos dinossauros levou os paleontólogos a desenvolverem teorias sobre o modo como os extintos répteis se alimentavam, os arqueólogos também passaram a desenvolver teorias a respeito da vida dos povos nômades. E em muitos casos estas teorias acabaram por se chocar com os abundantes e milenares relatos bíblicos.

“Ao mesmo tempo, os arqueólogos queriam ser atores importantes na discussão sobre a historicidade da Bíblia e afirmavam que podiam ver mais do que podiam”, argumentou Ben-Yosef. “No entanto, agora temos evidências muito fortes de que essa abordagem estava errada e que o que pensávamos sobre os nômades na antiga Terra de Israel estava errado.”

Muito desta “nova forma de pensar” dos arqueólogos tem sido influenciado pelo resultado das descobertas feitas no sítio arqueológico de Timna, onde Erez Ben-Yosef é atualmente diretor de escavação.

Localizado em Arava, no sul de Israel, o local era tradicionalmente associado ao Rei Salomão e ao seu reino, datando de cerca de 3.000 anos – até que alguns vestígios arqueológicos descobertos no final da década de 1960 sugeriram que suas antigas minas de cobre foram operadas pelo Império Egípcio por dois séculos mais cedo.

No entanto, nos últimos anos, a datação por rádio-carbono do material orgânico encontrado em Timna provou que a atividade mais intensa do local aconteceu por volta de 1.000 a.C, justamente na época de Davi e Salomão.

De acordo com Ben-Yosef, o local fazia parte do Reino Edomita nômade, mas pode ter estado sob o controle do Israel nômade, como a Bíblia registra. Crucialmente, Timna apresenta diversas provas de que as sociedades não precisam ser sedentárias ou deixar grandes palácios para trás para provarem que um dia foram ricas e influentes.

“No passado havia um consenso de que apenas um império poderia ser responsável por uma operação tão grande, que exigia milhares de trabalhadores, mas na época em que as minas estavam ativas, não havia império na região, apenas essas tribos e uma coalizão de tribos que funcionavam como reinos, sem construir cidades ”, disse Ben-Yosef

A atividade de mineração em Timna deixou toneladas de escória de cobre no local e, como sua ocupação durou muito tempo, outras descobertas acabaram por se revelar, incluindo peças em cerâmica e restos orgânicos que foram preservados graças ao clima seco do local.

O material encontrado inclui alimentos como amêndoas e peixes e até mesmo tecidos tingidos com púrpura, o pigmento mais caro da época e um símbolo de status das elites nas sociedades antigas da região.

De acordo com Ben-Yosef, nos tempos de Davi e Salomão uma parte significativa da população ainda vivia em tendas. “Como era comum na época, era uma sociedade mista, com algumas pessoas morando em tendas e outras em prédios”, disse o professor, dobrando-se diante dos relatos da Bíblia: “Como o autor bíblico nos diz, com o tempo, mais pessoas se estabeleceram, mas muitos continuaram a viver em tendas até a destruição do Primeiro Templo.”

Além disso, na época, o domínio e o governo de outros povos não dependiam do estabelecimentos de fortalezas, como aconteceu principalmente na Idade Média. Estudos modernos demonstram que tal domínio podia ser baseado em acordos e arrecadação de impostos, exatamente conforme relata a Bíblia, em episódios como a relação entre Israel e Edom.

As descobertas feitas pela equipe do professor Erez Ben-Yosef têm demonstrado que a arqueologia precisa mudar se quiser interpretar bem determinados tempos e determinadas civilizações. Esta nova postura tem demonstrado ainda que a ciência, como sempre, precisa evoluir, precisa mudar, enquanto a Bíblia continua e continuará imutável.

“O texto bíblico é complexo e contém alguns preconceitos e exageros, mas acredito que contém muito mais verdade do que muitos supõem”, afirmou, de forma surpreendente, o professor Ben-Yosef.

Ben-Yosef não é uma pessoa religiosa, e a visão da Universidade de Tel Aviv, onde ele ensina, é uma visão marcada pelo Minimalismo Bíblico, da Escola de Copenhague, segundo a qual a Bíblia não pode ser considerada evidência confiável para o que aconteceu no antigo Israel e que o próprio “Israel” é um assunto problemático para o estudo histórico.

Esta é a razão pela qual a posição do professor Erez Ben-Yosef surpreende.

“Não podemos usar a arqueologia para estudar a historicidade da Bíblia da forma como foi feito até agora. Precisamos reconhecer a realidade, não podemos simplesmente continuar procurando paredes, nossas regras precisam mudar”, concluiu o professor.

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